A fabricação de uma tradição: como o mercado inventou o Dia das Crianças
De decreto esquecido a operação de marketing: a curiosa gênese do 12 de outubro como data consagrada
O Congresso Sul-Americano da Criança de 1923 — reunião de especialistas em infância no Rio de Janeiro — gerou comoção suficiente para inspirar o deputado Galdino do Valle Filho a propor a data comemorativa. Sancionada em 1924 por Arthur Bernardes, a lei permaneceu letra morta por três décadas. Getúlio Vargas tentou, sem sucesso, transferir a celebração para 25 de março em 1940. A efetiva consagração do 12 de outubro veio por uma engenharia de mercado: na década de 1950, fabricantes como Estrela e Johnson & Johnson converteram a 'Semana do Bebê Robusto' — promoção que premiava fotos de crianças — na 'Semana da Criança', resgatando artificialmente o decreto esquecido. O que se vende como tradição foi, na verdade, uma consolidação tardia de interesses comerciais — caso exemplar de como o capitalismo fabrica rituais sociais sob o manto da espontaneidade.