Arte em Travail: O Cinema-Bebê de Guto Parente
Em 'Morte e Vida Madalena', o cinema cearense encena sua própria gestação dolorida
O cinema de Guto Parente sempre foi um parto prematuro. Desde 'Estrada para Ythaca' (2010), marco do coletivo Alumbramento que reinventou o cinema cearense com película de baixíssimo orçamento e alta densidade poética, o diretor trata a criação cinematográfica como ato obstétrico. Em 'Morte e Vida Madalena', Parente radicaliza a metáfora: a produtora-grávida (Noá Bonoba) que tenta finalizar um filme de ficção científica absurdista enquanto seu próprio corpo conspira contra a obra é espelho do cinema brasileiro independente - sempre pariu entre dores e escassez. O filme opera em duplo registro autobiográfico: além de Parente processar a morte do pai (tema já abordado em 'Estranho Caminho'), a produtora Ticiana Augusto Lima descobriu-se grávida após as filmagens, levando o conceito de 'cinema-parto' ao extremo literal. Há aqui uma ironia cruel: foi justamente quando o coletivo Alumbramento abandonou a estética DIY que Parente encontrou seu tema definitivo - a impossibilidade de desvincular obra e vida na periferia do cinema industrial.