China supera EUA em aprovação na América Latina, mostra pesquisa
Estratégia de soft power chinês ganha terreno mesmo em países governados pela direita
A influência da China na América Latina é vista de forma mais positiva do que a dos EUA, segundo a pesquisa Latinobarómetro. O índice de aprovação da China subiu de 48% em 2020 para 65% em 2026, enquanto os EUA têm 57% de avaliação positiva. Mesmo em países com governos de direita alinhados ideologicamente a Trump, como o Chile, a China mantém vantagem (70% contra 46%).
O fenômeno não reflete uma adesão política ao modelo chinês, mas uma percepção de benefícios concretos. Segundo Marta Lagos, diretora da pesquisa, a China preenche 'o vazio dos bolsos' com produtos acessíveis, investimentos em infraestrutura e compra de commodities.
Enquanto isso, a imagem dos EUA na região caiu de 73% em 2024 para 63%, com 55% dos entrevistados avaliando que as políticas de Trump terão impacto negativo global. A pesquisa revela que os latino-americanos distinguem entre preferências políticas domésticas e avaliação das potências estrangeiras.
Os números do Latinobarómetro revelam a vitória tática da estratégia chinesa de soft power na América Latina. Enquanto Washington exporta valores democráticos e alinhamentos geopolíticos, Pequim oferece bens de consumo e contratos sem condicionalidades - uma troca que ressoa em economias pressionadas.
A ascensão de governos de direita não se traduziu em realinhamento automático porque a China construiu interdependências econômicas difíceis de romper. O cobre chileno, a soja brasileira e o petróleo venezuelano têm na China um comprador confiável, criando interesses empresariais e estatais que transcendem ideologias.
A queda da imagem americana coincide com o segundo mandato Trump, mas reflete também uma mudança estrutural: os EUA perderam o monopólio como fornecedor de investimentos e tecnologia para a região. A China oferece uma alternativa concreta onde antes havia apenas retórica anti-imperialista.
O dado crucial não está nos 65% de aprovação chinesa, mas nos 48% de 2020: em seis anos, Pequim normalizou sua presença como ator indispensável. O próximo passo será converter essa influência econômica em alavancagem política - o verdadeiro teste para o modelo chinês.