Cuba entre blecautes e geopolítica
Apagões recorrentes expõem crise estrutural além das sanções americanas
Cuba enfrenta seu sétimo apagão nacional em 2026, em meio a uma crise energética crônica agravada pelas sanções dos EUA. O Sistema Elétrico Nacional foi reconectado após 30 horas de interrupção, mas autoridades alertam que os cortes continuarão devido ao déficit de geração. A capital Havana teve apenas 48% de cobertura elétrica no sábado à noite, com relatos de moradores recebendo apenas quatro horas de energia antes de novos cortes.
O diretor da União Elétrica de Cuba, Lisner Cruz, admitiu a gravidade da situação, atribuindo parte do problema à falta de combustível para operar usinas termelétricas obsoletas e geradores de reserva. As sanções americanas, implementadas desde janeiro, restringem o acesso cubano a petróleo e diesel importados. Enquanto Havana culpa Washington, os EUA alegam má gestão interna como causa principal dos apagões.
A atual crise supera em duração os apagões anteriores, com algumas províncias enfrentando mais de 60 horas consecutivas sem energia. A União Elétrica reduziu em seis horas o tempo de restauração em comparação com o último grande blecaute em janeiro, mas a infraestrutura envelhecida mantém o sistema à beira do colapso.
A repetição de apagões em Cuba revela uma crise estrutural onde geopolítica e gestão se entrelaçam. As sanções americanas, embora reais, funcionam como acelerador - não como causa única - de um colapso energético previsível. O governo cubano opera em modo de sobrevivência, usando a narrativa do bloqueio para desviar atenção de décadas de subinvestimento em infraestrutura crítica.
O timing é revelador: os blecautes se intensificaram após a imposição de novas sanções em janeiro, mas as sete termelétricas obsoletas já operavam no limite há anos. Havana joga um jogo duplo - aceita ajuda energética da Venezuela e China enquanto maximiza a retórica anti-americana para união doméstica.
Os números falam por si: 30-60 horas de apagões em 2026 versus a média histórica mostram deterioração acelerada. A UNE, apesar do discurso técnico, é refém de cálculos políticos - prioriza Havana (48% de cobertura) para conter protestos na capital, enquanto interior sofre desproporcionalmente.
Esta é uma crise de governabilidade disfarçada de crise energética. O combustível falta, mas faltam mais: peças de reposição, know-how técnico e - crucialmente - moeda forte para importações. O modelo cubano esgotou sua capacidade de adaptação, e os apagões são seu sintoma mais visível.