Execuções na Arábia Saudita: o duplo castigo às famílias dos condenados
Reter corpos de executados amplia trauma e reforça controle social, dizem especialistas
A Arábia Saudita, um dos países que mais aplicam a pena de morte no mundo, executou cinco etíopes em junho deste ano por contrabandear maconha. As famílias das vítimas não foram informadas sobre as execuções e enfrentam um duplo castigo: além da perda de seus entes queridos, não receberam os corpos para realizar cerimônias religiosas essenciais para o luto. Kibrom Kinfe Aregawi, de 25 anos, foi um dos executados. Seu pai, Kinfe Aregawi, expressou a dor de não poder realizar um enterro cristão ortodoxo tradicional, onde o corpo é envolto em uma mortalha cerimonial e colocado em um caixão de madeira. A relatora especial da ONU sobre liberdade de religião ou crença, Nazila Ghanea, classificou a retenção dos corpos como 'tortura e abuso'. Até 27 de julho, a Arábia Saudita já havia executado 116 pessoas em 2024, segundo a Human Rights Watch.
A retenção dos corpos dos executados pela Arábia Saudita não é um acidente burocrático, mas um mecanismo de pressão política e controle social. O país utiliza a pena de morte como ferramenta de dissuasão, e a negação dos corpos amplifica o impacto da punição, estendendo o trauma às famílias e comunidades das vítimas. Essa prática serve tanto para intimidar potenciais infratores quanto para reforçar a autoridade do Estado em um contexto onde a estabilidade interna depende da projeção de força. A escolha de não repatriar os corpos dos etíopes também pode ser vista como uma mensagem para a Etiópia, um país com relações tensas com o reino saudita, especialmente em questões migratórias e de controle de fronteiras. Além disso, a negação de cerimônias religiosas para cristãos ortodoxos etíopes enfraquece simbolicamente a identidade religiosa da comunidade, alinhando-se à política saudita de promover uma narrativa islâmica dominante. O silêncio internacional sobre o tema reflete a complexidade das relações geopolíticas com um player-chave no Oriente Médio.