Filumena Marturano' revive o dilema feminino pós-guerra com atualidade urgente
Montagem brasileira da obra-prima de Eduardo De Filippo expõe contradições de gênero sob a direção de Eduardo Tolentino
Quando Eduardo De Filippo escreveu 'Filumena Marturano' em 1946, o mundo emergia das cinzas da Segunda Guerra. Setenta e seis anos depois, a peça ganha vida no Teatro Sesi através da Companhia Tapa, revelando que as batalhas domésticas travadas pela protagonista — uma ex-prostituta que arquiteta um casamento por interesse — ecoam com inquietante atualidade. Sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo, Sandra Corveloni encarna Filumena com uma força que transcende o texto original, transformando o drama social napolitano em espelho das contradições brasileiras. A personagem, que desafia convenções sem ostentar bandeiras feministas, dialoga diretamente com a plateia através de monólogos e canções populares, enquanto questiona as estruturas patriarcais em um cenário burguês que ignora os conflitos externos. A montagem não apenas resgata a obra de De Filippo do esquecimento imposto pela ditadura militar, mas também expõe como as lutas por estabilidade e reconhecimento social permanecem pulsantes no Brasil contemporâneo.