Governo projeta dívida pública perto de 90% do PIB em 2029
Estimativas revisadas indicam cenário mais desfavorável e colocam trajetória da dívida no centro do debate econômico
O governo federal revisou suas projeções para a dívida pública, estimando que ela chegará perto de 90% do PIB em 2029 e poderá ultrapassar esse patamar caso o resultado das contas fique no piso inferior da meta fiscal nos próximos anos. As novas estimativas foram divulgadas nas informações complementares do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, enviado ao Congresso nesta sexta-feira (18). Segundo o Tesouro Nacional, a dívida bruta do governo geral (DBGG) deve subir seis pontos percentuais nos próximos quatro anos, alcançando 89,7% do PIB em 2030. O atual mandato do presidente Lula deve terminar com uma expansão de 12 pontos percentuais na dívida bruta, fechando o ano em 83,7% do PIB. A equipe econômica atribui a piora dos últimos anos à regularização de despesas represadas no governo anterior e ao aumento da taxa básica de juros (Selic). Além disso, o ritmo de expansão de gastos federais e o uso de recursos financeiros para turbinar o crédito subsidiado têm sido alvo de críticas de especialistas e agentes do mercado financeiro.
A revisão das projeções da dívida pública revela uma estratégia de gestão de expectativas. O governo, ao projetar um cenário mais desfavorável, cria uma margem de manobra para justificar eventuais ajustes futuros sem surpreender o mercado. A atribuição da piora à regularização de despesas represadas e à alta da Selic é conveniente, pois dilui responsabilidades entre gestões anteriores e fatores externos. No entanto, o uso de recursos financeiros para turbinar o crédito subsidiado e a expansão de gastos federais indicam uma priorização de políticas de curto prazo em detrimento da estabilidade fiscal. O cenário projetado coloca a trajetória da dívida no centro do debate econômico, especialmente em um ano eleitoral, onde a narrativa de austeridade pode ser politicamente custosa. A incorporação de taxas de juros mais altas nas projeções sugere uma tentativa de precaver-se contra volatilidades futuras, mas também reflete uma expectativa de que o custo do endividamento permanecerá elevado. A estratégia de estabilização e redução gradual da dívida no longo prazo pode ser uma sinalização para o mercado, mas a margem de tolerância da meta fiscal abre espaço para flexibilizações que podem comprometer essa trajetória.