Inadimplência cai em setembro, mas famílias comprometem mais renda com dívidas
Pesquisa da CNC mostra que tempo médio de atraso chegou a 65,3 dias, o maior desde 2024.
A inadimplência entre famílias brasileiras registrou leve queda em setembro, mas o comprometimento da renda com dívidas aumentou, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O percentual de famílias com contas em atraso caiu para 29,6%, ante 29,9% em agosto, o menor nível desde março. Já o comprometimento médio da renda com dívidas subiu para 29,6%, contra 29,3% no mês anterior. O tempo médio de atraso também aumentou, atingindo 65,3 dias, o maior patamar desde novembro de 2024. Entre as famílias endividadas, 81,7% mantêm compromissos financeiros em dia, enquanto 12,5% afirmam não ter condições de pagar as dívidas atrasadas no próximo mês. A parcela de famílias com mais da metade da renda comprometida com dívidas chegou a 19,4%, o maior nível desde fevereiro. O governo federal acompanha o cenário e anunciou em setembro uma nova fase do programa Desenrola Brasil, que prevê a compra de carteiras de dívidas inadimplentes para negociar descontos com os consumidores.
Os números da Peic revelam uma dinâmica perversa: enquanto a inadimplência cai levemente, o endividamento se aprofunda. A queda de 0,3 ponto percentual nas contas em atraso mascara o aumento do comprometimento da renda e do tempo médio de atraso, que atingiu 65,3 dias, o maior em quase dois anos. Isso sugere que famílias estão recorrendo a renegociações ou alongamento de prazos para manter as aparências de solvência, mas pagam o preço de comprometer a renda por períodos mais longos. O Desenrola Brasil, anunciado em setembro, parece mais um paliativo eleitoral que uma solução estrutural: ao comprar carteiras de dívidas inadimplentes, o governo transfere o custo para o setor público enquanto mantém o ciclo vicioso de endividamento. A alta de 19,4% no percentual de famílias com mais da metade da renda comprometida expõe a fragilidade financeira de um segmento que já vive no limite. O mercado celebra a queda marginal da inadimplência, mas ignora o risco sistêmico de uma população cada vez mais dependente de crédito para sobreviver.