Inflação a 3% como caminho para cortes de juros sustenta rentistas
Artigo técnico esconde jogo de poder entre credores e endividados
A diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, argumenta em artigo que reduzir a inflação para 3% é a estratégia mais eficiente para cortes de juros sustentáveis. Ela destaca que o próximo governo precisará alinhar políticas fiscal e monetária, apresentando uma trajetória crível para as contas públicas. Srour compara com o período 2016-2018, quando o BC manteve juros altos até a inflação convergir para a meta, possibilitando cortes posteriores para 6,5%. A economista critica propostas de elevar a meta de inflação, argumentando que mudar as regras no momento em que começam a funcionar mina a credibilidade. O verdadeiro obstáculo, segundo ela, não é a meta de inflação, mas a fragilidade fiscal.
O artigo revela um jogo de expectativas onde a credibilidade é moeda mais valiosa que os juros nominais. O paralelo com 2016 não é inocente: trata-se de um recado ao próximo governo sobre o custo político de adiar ajustes. Quando Srour defende manter a meta em 3%, está na verdade protegendo o BC da pressão por cortes precipitados. A estratégia 'desinflar primeiro, cortar depois' serve aos detentores de títulos indexados à Selic - que ganham duas vezes: com juros altos no curto prazo e valorização dos papéis quando os cortes finalmente vierem. O discurso técnico esconde o conflito entre rentistas e endividados: enquanto os primeiros lucram com a credibilidade, os últimos sangram com juros altos prolongados. A equação só muda quando a inadimplência ameaça os lucros bancários.