Maioria dos gastos com prisões no Brasil tem como alvo pessoas negras, aponta estudo
Enquanto estados investem R$ 13,7 bilhões em encarceramento de pretos e pardos, políticas para egressos recebem apenas R$ 19 milhões.
Um estudo do Centro de Pesquisa Justa revelou que 60% dos gastos com prisões em 26 unidades federativas do Brasil são destinados ao encarceramento de pessoas negras. O investimento total no sistema prisional em 2025 foi de R$ 22,3 bilhões, sendo R$ 13,7 bilhões direcionados a pretos e pardos. A advogada Sofia Fromer, do Justa, critica a seletividade penal e a lógica punitivista que coloca a população negra como principal alvo do sistema carcerário. O estudo também aponta que políticas de reinserção para egressos recebem apenas R$ 19 milhões, enquanto as polícias estaduais consomem R$ 5.423 para cada R$ 1 destinado a egressos. São Paulo liderou os investimentos em políticas para egressos com R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Tocantins, Rio Grande do Sul e Santa Catarina demonstraram avanços tímidos, enquanto Alagoas e Tocantins deixaram de investir.
O estudo do Justa expõe uma engrenagem que transforma o sistema prisional em uma máquina de reprodução das desigualdades raciais. Seis em cada dez reais gastos com prisões financiam o encarceramento de pessoas negras, o que evidencia um padrão de seletividade que começa na abordagem policial e se consolida no judiciário. Os números revelam ainda uma política de segurança pública que privilegia o policiamento ostensivo em detrimento da reinserção social: enquanto as polícias estaduais recebem bilhões, os egressos do sistema prisional lutam por migalhas orçamentárias. A disparidade entre os gastos com prisões e os investimentos em políticas de reinserção sugere uma estratégia de perpetuação do ciclo de exclusão, principalmente da população negra. Os estados brasileiros, ao priorizarem o encarceramento em vez da reintegração, reforçam uma lógica punitivista que ignora as causas estruturais da criminalidade e mantém o status quo das desigualdades raciais e sociais.