Netanyahu mantém retórica belicista em discurso vaiado na ONU
Premiê israelense repete estratégia de confronto enquanto crise em Gaza completa três anos
O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, fez um discurso inflamado na 81ª Assembleia Geral da ONU nesta quarta-feira (24), marcado por vaias e saída de delegações, incluindo a brasileira. Em linha com seus pronunciamentos anteriores, Netanyahu atacou críticos e defendeu as políticas israelenses com retórica agressiva e recursos visuais.
O premiê iniciou provocando os delegados presentes: 'Se ainda há covardes que não deixaram o salão, o façam agora por favor'. Referindo-se às Colinas de Golã, ocupadas por Israel desde 1967, afirmou: 'Os judeus estiveram nas Colinas de Golã desde o tempo de Moisés'.
Como em anos anteriores, Netanyahu utilizou elementos visuais - desta vez exibindo um pager usado em operações contra o Hezbollah e um dispositivo Starlink para criticar o Irã. O discurso também comparou os ataques de 7 de outubro de 2023 ao 11 de Setembro, justificando a ação militar em Gaza que já deixou mais de 73 mil palestinos mortos.
Enquanto isso, Nova York presenciava protestos contra Israel e o apoio militar dos EUA, contrastando com a campanha pró-Israel financiada pelo governo Netanyahu, que incluiu 500 outdoors e propagandas anti-Irã na cidade.
O discurso de Netanyahu na ONU segue um padrão calculado de confrontação que serve a múltiplos objetivos domésticos e geopolíticos. A encenação das saídas das delegações oferece material para a narrativa de 'Israel contra o mundo', crucial para mobilizar sua base enquanto enfrenta desafios internos crescentes.
Os elementos visuais são cuidadosamente coreografados: o pager conecta-se à recente operação contra o Hezbollah, enquanto o Starlink reforça a dicotomia entre o 'Israel tecnológico' e o 'Irã opressor'. Esta performance midiática é destinada principalmente ao eleitorado doméstico e à diáspora judaica, não aos diplomatas presentes.
O timing coincide com o aumento da pressão internacional por investigações sobre possíveis crimes de guerra e com a fragilidade da coalizão governista israelense. Ao radicalizar o discurso, Netanyahu busca consolidar seu núcleo duro de apoio enquanto desvia atenção dos escândalos de corrupção que persistem em seu governo.
A campanha de outdoors em Nova York revela a estratégia paralela de influenciar a opinião pública americana, crucial para manter o fluxo de apoio militar e político de Washington. Cada elemento do discurso foi planejado para reforçar a imagem de cerco e resistência que sustenta seu projeto político há décadas.