O Paradoxo da Desconfiança Digital: Perel na SP2B
Terapeuta belga aponta confiança cega em algoritmos como sintoma da atrofia social contemporânea
Festivais de inovação costumam celebrar a tecnoutopia, mas Esther Perel subverteu o script na abertura do SP2B. Enquanto hologramas dos Titãs piscavam no palco, a psicoterapeuta belga dissecou o que realmente está em crise na era digital: não a falta de tecnologia, mas a erosão da confiança interpessoal. Sua tese é contraintuitiva — em plena febre de ChatGPT e deepfakes, nossa descrença maior não está nas máquinas, mas nos humanos ao lado. O diagnóstico aponta para um capitalismo paradoxal: empresas investem bilhões em IA generativa enquanto equipes reais operam em silos de desconfiança mútua. Quando Perel afirma que 'o trabalho pesado não é sinal de complexidade, mas de comunicação ruim', ecoa o velho Adorno — a técnica avança, as relações regridem. O festival que se propõe a debater inovação ouviu, sem querer, seu mais potente contra-argumento: nenhum algoritmo corrigirá o déficit de profundidade que nos torna solidários numa multidão de likes.