Brasil vira importador líquido de calçados pela 1ª vez em 30 anos
Queda nas exportações para EUA e Argentina e avanço asiático invertem balança comercial do setor
O Brasil registrou em julho de 2026 um marco histórico no setor calçadista: pela primeira vez em quase três décadas, as importações superaram as exportações. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o país importou US$ 66 milhões em calçados contra US$ 62 milhões exportados. O fenômeno reflete uma tendência de longo prazo, com as exportações brasileiras de calçados em declínio desde o início da última década, enquanto as importações seguem em crescimento. Nos primeiros sete meses do ano, as importações somaram US$ 373 milhões, aumento de 10% ante 2025, enquanto as exportações caíram 18%. A China lidera as importações, com US$ 31 milhões em calçados enviados ao Brasil no período. A Abicalçados atribui o resultado à retração nos mercados americano e argentino, principais destinos das exportações nacionais, e ao aumento da entrada de produtos asiáticos de menor preço.
A inversão da balança comercial calçadista não é acidente, mas sintoma de três dinâmicas estruturais. Primeiro, o lobby industrial perdeu força política: enquanto nos anos 2000 o setor conseguia barreiras protecionistas, hoje disputa atenção com setores mais estratégicos. Segundo, a cadeia produtiva brasileira tornou-se refém de dois mercados voláteis - EUA e Argentina -, sem diversificação geográfica. Terceiro, a indústria asiática descobriu o ponto cego brasileiro: calçados médios entre o premium nacional e o ultra-barato. A Abicalçados pede protecionismo, mas o timing é ruim: o governo enfrenta pressões inflacionárias que tornam barreiras comerciais impopulares. Os incentivos sugerem que o setor terá de se adaptar à nova realidade em vez de contar com salvamento estatal.